A Psicologia de Bhagwan Das – Por João Gabriel Simões

Ciência da Cognição, do Desejo e da Ação

Bhagwan Das foi um erudito e teósofo indiano, nascido em 1869, que escreveu proficuamente sobre diversos assuntos, tais como: organização social, teosofia, metafísica e psicologia. No presente trabalho, pretende-se apresentar uma súmula do que ele escreveu em algumas de suas obras sobre psicologia, a partir de seu enfoque hinduísta-védico.

Conforme a psicologia de Bhagwan Das (1938), quando individualizado, o Eu (Self) se manifesta no mundo, por meio da combinação dos 3 modos que compõem a alma humana: cognição, emoção-desejo e ação. No modo da cognição temos o pensamento, o raciocínio, ou seja, a atividade cognitiva humana. No do desejo-emoção, temos tanto a desejabilidade como a afetividade, aliás, para Das, desejo e emoção, em certo sentido, são a mesma coisa. Por exemplo: o medo implica no desejo de afastar-se de sua causa, a raiva no de destruí-la, o amor romântico no de possuí-la e assim por diante. Finalmente, no modo da ação, nós temos a vontade que articula, executa, suspende ou cancela as solicitações emitidas pelos outros dois modos. Diante disso, a perspectiva psicológica desse autor se organiza em 3 ciências. Ciência da cognição, do desejo-emoção e da ação.

Dattatreya, por Raja Ravi Varma

É curioso notar que, por um lado, o Estoicismo — filosofia greco-romana — também se organiza, para alguns de seus expoentes como Epicteto, em 3 disciplinas: a do assentimento (cognição), a do desejo e a da ação (HADOT, 1998). Por outro lado, mais recente na história da humanidade, a Antroposofia de Rudolf Steiner (1996) compreende a alma humana, a partir de 3 atividades elementares: pensar (cognição), sentir (emoção) e querer (vontade). Embora não seja adequado equiparar a psicologia de Bhagwan Das com estoicismo e antroposofia, não podemos deixar de notar suas similitudes, no que diz respeito ao estudo da alma humana¹.

1. Ciência da Cognição

De volta ao assunto, no que tange a ciência da cognição o Eu se torna consciente de como pensa e do que conhece. O objetivo dessa ciência é aprender a pensar de forma lógica e conhecer a verdade. De acordo com essa ciência, a cognição envolve 3 elementos basilares. Memória — passado; percepção — presente; expectativa — futuro. Da memória, percepção e expectativa brotam todos os processos ² do aspecto intelectual da mente humana: lembrança, reconhecimento, concentração, abstração, comparação, imaginação, previsão, planejamento etc. (BHAGWAN DAS, 1938).

O conhecimento e entendimento do aspecto cognitivo da alma humana é fundamental para a compreensão dos outros dois aspectos (desejo-emoção e ação-volição). Distinguir o falso do verdadeiro, o real do ilusório, o essencial do secundário, o coerente do incoerente é indispensável para o aprimoramento psicológico do ser humano. Na psicologia contemporânea, a vertente que mais se aproxima disso é a terapia cognitivo comportamental ³ (BECK, 2013).

2. Ciência do Desejo

Aqui o Eu se torna consciente de suas emoções e de como deseja. O objetivo dessa ciência é compreender a natureza dual das emoções-desejos e sublimá-las, em busca de uma espécie de beleza afetiva — que poderia ser traduzida atualmente como inteligência emocional. É pertinente ressalvar, que diferente da distinção ocidental entre emoção e desejo, Bhagaván Dás (1982), considera estes dois termos intercambiáveis, tendo em vista que o desejo está sempre imbricado nas emoções e vice-versa.

Prazer-Dor, Atração-Repulsão

Seguindo a trilha da metafísica hindu, o autor aludido considera que a natureza do desejo-emoção é dual, uma vez que surge de outra dualidade ainda mais elementar, a saber, o par prazer-dor. O prazer potencializa e dilata o Eu, enquanto que a dor o despotencializa e o contrai. (BHAGAVÁN DÁS, 1982). O reflexo fisiológico disso é evidente no intumescimento e desintumescimento das genitálias no ato sexual, assim como na linguagem corporal expansiva de quem está alegre e contraída de quem está triste. Como o prazer é agradável e a dor desagradável, e como aquilo que é agradável nos atrai e aquilo que é desagradável nos repele, consequentemente, nos sentimentos atraídos por aquilo que é prazeroso e repelidos por aquilo que é doloroso. Ou seja, do par prazer-dor, surge o par atração-repulsão que, por sua vez, dá origem a todas as emoções-desejos, como veremos em seguida.

A partir do par atração-repulsão Bhagaván Dás (1982) elabora um esquema com 6 emoções raízes, como o fundamento de todas as outras.

No esquema acima, inferior, igual e superior se referem a aspectos dos indivíduos, tais como virtudes, força de caráter, habilidades, conhecimentos, talentos, saúde, constituição somática, condição socioeconômica etc. Em face disso, a atração ou repulsão por um “objeto” (pessoa, coisa, situação) mais a consciência de uma igualdade, inferioridade ou superioridade do “objeto” vai determinar a emoção que se tem. Sendo assim, a atração que alguém com boa saúde pode sentir por um doente (inferior em saúde) se expressa como compaixão; a atração que um fã de música tem pelo seu ídolo (superior em termos de técnica vocal) se expressa como reverência; e a atração que um cônjuge tem para com o outro (igualdade em termos gerais) se expressa como amor. Essa mesma lógica se aplica no entendimento das emoções do polo da repulsão ⁴.

Emoções complexas

Da combinação e permutação das 6 emoções expressas no esquema supracitado com fatores cognitivos, surge o riquíssimo espectro emocional do ser humano. Por exemplo, o ciúme, uma emoção complexa, é a sensação de repulsa mais a consciência (expressa na forma de um pensamento mais ou menos claro) de uma possível superioridade (imaginada ou real) do sujeito invejado, que o permita obter o que você e ele desejam. (BHAGAVÁN DÁS, 1982). Essa superioridade pode ser uma questão de aparência corporal, status profissional, qualificação, idade etc.

Virtudes e vícios

Quando as emoções oriundas da compaixão, amor e reverência se tornam permanentes, elas aparecem como virtudes. Já quando as emoções originadas do menosprezo, ódio e medo se tornam permanentes, elas aparecem como vícios. Neste sentido, virtudes e vícios são padrões de emoção-desejo cristalizados. Exemplificando, a covardia é a cristalização de um padrão psíquico de medo constante. Em contrapartida, a coragem é a cristalização de um padrão de bravura e firmeza reiterado (BHAGAVÁN DÁS, 1982).

Ressonância com Spinosa

Quem tem um olhar treinado em filosofia já deve ter percebido a semelhança com a filosofia Spinozista. Para Spinoza (2008), os dois pólos que originam todas as emoções são o da alegria e da tristeza; alegria sendo o aumento de potência do eu desejante e tristeza a perda da mesma, algo muito semelhante ao par prazer-dor do Bhagwan Das, que é o motor do desejo-emoção. Neste particular, o que pode-se depreender da exposição desse teósofo é que os termos da dualidade “prazer-dor” possuem um sentido amplo, significando muito mais aumento e diminuição da potência do Eu — se alinhando com o pensamento de Spinoza — do que simplesmente prazer e dor corporal.

3. Ciência da Ação

Aqui o Eu torna-se ciente do modus operandi da sua vontade, assim como das consequências de suas ações no mundo. O foco dessa ciência é a ação “boa”, “correta”, tendo em mente que o certo-errado, em termos de ação, depende do contexto. A essência da boa ação pode ser sintetizada no seguinte preceito: faça aos outros aquilo que você gostaria que eles fizessem com você. Esse preceito é a regra de ouro expressa, em diferentes formas, por Vyasa, Zoroastro, Confúcio, Buddha, Cristo, Maomé etc. É o fio condutor da ética da ação (BHAGAVÁN DÁS, 1982).

É importante destacar que a ação é realizada pela vontade. A vontade, por sua vez, é o poder do Eu de colocar em ato seus pensamentos e desejos-emoções, isto é, de atualizá-los na realidade. Por exemplo, ter um desejo-emoção de comer bolo de nozes não nos leva diretamente à ação decisiva, por parte da vontade, de ir na confeitaria comer o bolo. Só após considerarmos o desejo-emoção à luz da circunstância presente e termos vislumbrado as possibilidades de sua satisfação, que passamos para a ação. Ou seja, o desejo nos inclina em direção a uma ação, ao passo que a vontade a executa ou a suspende. O desejo é como o filho que pede para o pai (vontade) comprar um doce para ele — e cabe ao pai (vontade) decidir se dará ou não o doce ao filho.

As 3 ciências, os 3 caminhos do yoga e os 3 ideais da filosofia clássica

A título de conclusão, vale colocar em relevo a seguinte correlação. Jnana Yoga, Bhakti Yoga e Karma yoga são os 3 caminhos para a realização espiritual mencionados no Bhagavad Gita — escritura sagrada hindu. Jnana é o caminho do conhecimento e se relaciona com a ciência da cognição, cujo ideal é a verdade. Bhakti é o caminho da devoção/amor e se relaciona com a ciência do desejo, que tem na beleza o seu ideal. E por fim, o Karma yoga, o caminho da ação, está relacionado com a ciência da ação, cuja bondade é seu principal atrator.

Aqui vemos como na tradição hindu, espiritualidade (yoga) e ciência (psicologia) estão interligadas. Ambas visam, cada qual dentro de seu escopo, conduzir o ser humano para a realização de sua natureza imanente/transcendente — tal é o poder de uma verdadeira Tradição, no sentido guenoniano do termo. Ademais, verdade, beleza e bondade, além de representarem valores transcendentes ou ideais da manifestação humana na espiritualidade hindu, também representam o mesmo para a filosofia grega clássica, vide as obras de Platão (BHAGAVÁN DÁS, 1982).

Notas

(1) Assunto para outro estudo.

(2) Processos matizados pelos outros dois modos(aspectos) da alma — desejo-emoção e ação-volição.

(3) Vide o procedimento de reestruturação cognitiva e a identificação de distorções cognitivas utilizada no trabalho clínico.

(4) Para uma descrição detalhada dos vários tipos de emoções que brotam da polaridade atração-repulsão, confira a obra: La ciencia de las emociones do Bhagaván Dás.

Referências

BECK, JS. Terapia cognitivo-comportamental: teoria e prática. Porto Alegre: Artmed, 2013.

BHAGAVÁN, Dás. La ciencia de las emociones. Ediciones Adyar. 1982.

BHAGWAN, Das. The Science Of The Self, The Principles Of Vedanta-Yoga. Benares: the Indian book shop, 1938.

HADOT, Pierre. The Inner Citadel: The Meditations of Marcus Aurelius, M. Chase (Trans.). Cambridge, MA: Harvard University Press. 1998.

STEINER, Rudolf. The Foundations Of Human Experience. Translated by Robert F. Lathe & Nancy Persons Whittaker. Hudson, N.Y. Anthroposophic Press, 1996.

SPINOZA, B. Ética. Trad. de Tomaz Tadeu da Silva. Belo Horizonte: Autêntica, 2008.

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