Poemas – Por Khalil Gibran

I


A Justiça terrena causaria pesar a Djim,
tão desvirtuado tem sido o seu sentido.
E os mortos, esses zombariam
do que no mundo se chama equidade.

Sim. Morte e prisão é o que distribuímos
aos pequemos transgressores das leis,
ao passo que honra, riqueza e alto respeito
tributamos aos grandes piratas.

Condenamos quem furta uma flor.
Mas quem se apodera de um campo é um cavalheiro.
Deve morrer quem mate o corpo;
e para quem mate o espírito, liberdade.

II

Este mundo não passa de um vinhedo
cujo dono e chefe é o Tempo,
que só cuida daqueles que se abismam
em sonhos sem nexo e sem sentido.

Os homens bebem e põem-se a correr
como cavalos endemoninhados.
Por isso alguns são ruidosos ao rezar,
outros, frenéticos, quando cuidam de comprar.

Poucos na terra sentem o sabor da vida
e não se enjoam de seus excessos.
Nem desviam as suas fontes para taças
em que seus sonhos flutuem e naufraguem.

Se encontrardes, por acaso, uma alma sóbria
no meio desta orgia louca,
maravilhai-vos: é como a lua que encontrou
uma nuvem de chuva como pálio.

III

No campo ninguém se aflige,
ninguém se abate com os seus pesares.
Os zéfiros segredam apenas compaixão,
quando murmuram entre o arvoredo.

Dai-me uma flauta e cantai comigo!
que o canto apague as mágoas,
pois o trinado da flauta repercute,
quando passado e futuro se entrelaçam...

IV

O homem livre constrói na sua luta
o cárcere em que irá prender-se.
E quanto se afasta do clã familiar,
tomba escravo de uma idéia,
ou das carícias de um amor...

V

A Ciência segue amplas estradas.
Conhecemos o seu começo, mas perdemos os
seus limites.
Pois o Tempo e o Destino dirigem o seu curso,
e não alcançamos ver além das curvas dos
caminhos...

O que mais importa na Sabedoria
é o sonho a que se apega o homem vitorioso
que é firme e incólume ao ridículo, e que se
mantenha calmo
e por isto caminha sereno, indiferente e humilde.

Assim é o profeta quando chega
envolvido no manto do seu pensamento
e se encontra no meio do seu povo
que não percebe os tesouros que ele carrega.

Ele é um estranho nesta vida.
Estranho aos que louvam e aos que blasfema.
Pois alça a tocha da verdade,
mesmo que a chama desta o devore.

Ele é valente, embora, ao contrário,
pareça apenas gentil e cordial.
É distante dos que lhe estejam perto,
tanto quanto dos que lhe estejam longe.

VI

A felicidade é um mito que buscamos;
mas dele nos cansamos quando se materializa,
tal como o rio que desce veloz pelos campos
e que ao chegar se arrasta sonolento.

Pois o homem só é feliz
na aspiração de ser feliz.
Sempre que alcança um sonho, entedia-se
e se lança a outros vôos pelas alturas.

Se encontrardes, por acaso, um homem feliz,
esteja contente com o seu Fado
e, ao contrário de toda a Humidade,
orai para que seu Nirvana não seja perturbado.

VII

Esquecem-se as glórias
dos Conquistadores intrépidos.
Mas nunca até o fim dos tempos
nos esqueceremos dos grandes amorosos.

No coração do guerreiro macedônio
vislumbramos um matadouro;
mas no de ais entrevemos
um templo para esponsais.

No triunfo do primeiro
descobre-se a derrota ignóbil;
enquanto na frustração de ais,
a vitória foi completa.

Pois o amor aninha-se apenas na alma
- não no corpo – e, como o vinho,
ele estimula nossa espiritualidade
a acolher as bênçãos do Amor Divino.

VIII

Na terra, a morte é o fim, para quem é apenas o filho
da terra.
Mas àquele que tem raízes no etéreo,
ela é apenas o princípio
do triunfo certo e seu.

Quem abraça a aurora em sonhos
certamente é imortal.
Se ele dormir a sua longa noite,
dormitará num mar de tranquilidade.

Mas quem à terra, ao chão com apego se agarrar,
no chão rastejará, mesmo acordado, até o final.
A morte, como o mar, será vencida por quem a
enfrentar de alma leve.
Os de alma turva – se afogarão.

IX

No campo só há a lembrança
dos que se amaram ardorosamente.
Quanto aos reis que governaram
do alto de tronos opressores, restam

as páginas, apenas, da história de seus crimes.
Mas a lembrança dos apaixonados,
esta ficou, sublime,
pelas campinas em flor...

X

A cultura que o povo tem hoje
é como a neblina sobre o campo.
Ao despontar, porém, do sol,
seus raios desfarão a névoa...
Extraído do livro “A Procissão”, de Kahlil Gibran, tradução de Emil Farhat, Ed. Record
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